sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Dom Pedro II e Princesa Isabel - De pai para filha

Por que um imperador culto, que afastou o Brasil do rumo dos caudilhos e das ditaduras sul-americanas, não foi capaz de assegurar a sucessão da princesa que aboliu a escravidão Texto Wagner Gutierrez Barreira | 08/01/2014 16h47 O vapor Alagoas, que levava a família imperial para o exílio em novembro de 1889, afastava-se do continente sul-americano para o mar aberto, ao largo da costa da Ilha de Fernando de Noronha. Emocionados, dom Pedro e seus parentes resolveram enviar uma última mensagem à pátria. Apanharam um pombo a bordo e discutiram o conteúdo de seu derradeiro recado em território brasileiro. Escolheram uma única palavra - saudade - e soltaram o bicho, que deveria voar em direção ao país com a homenagem singela. Mas o pombo não tinha vocação para correio. Suas asas haviam sido aparadas. O resultado: a "saudade" foi ao fundo do oceano com seu portador, a poucos metros do navio. Talvez a cena da última tentativa de comunicação entre a família imperial e o povo brasileiro funcione como metáfora do que foram os anos da monarquia. As intenções sempre eram as melhores. As atitudes, por vezes desastrosas. O órfão da nação O menino tinha apenas 5 anos quando foi arrancado da cama e levado da Quinta da Boa Vista para o Paço Imperial do Rio de Janeiro. Assustado, chorava sem parar, encolhido no banco de trás da carruagem. No caminho, o veículo foi parado por populares, que tiraram os cavalos e se encarregaram de levar eles mesmos a carga preciosa ao seu destino. Havia cheiro de pólvora, vindo de tiros de artilharia. Uma multidão tomava as ruas. O pequeno Pedro, tornado imperador do Brasil naquela noite de 7 de abril de 1831, ocuparia o lugar do pai, que acabara de abdicar. Sua mãe, Maria Leopoldina, havia morrido quando ele era um bebê. Enquanto o garoto era levado ao paço, Pedro I já estava a bordo da fragata inglesa Warspite. Pai e filho nunca mais se viram outra vez. Por quase meio século, o chamado "órfão da nação" ocuparia o papel de fiador do império. O golpe que lhe garantiu a maioridade aos 14 anos transformou Pedro de Alcântara no condutor do Segundo Reinado. Enquanto os vizinhos latino-americanos se fragmentavam em pequenas repúblicas, comandadas por caudilhos, o Brasil, grande e unido, era visto pelo resto do mundo como uma ilha de civilização em meio à barbárie. Pedro foi criado por tutores (o primeiro deles foi o Patriarca da Independência, José Bonifácio) e por funcionários do palácio. Sua formação foi uma só: seus professores trataram de lhe ensinar como ser magnânimo, justo, educado, comprometido e fiel ao Brasil. Pedro cumpriu à risca o que lhe foi ensinado. Quando morreu no exílio, aos 66 anos, em 1891, seu obituário no jornal The New York Times afirmou que ele "foi o mais ilustrado monarca do século". Dom Pedro II foi um escravo de seu país desde a abdicação de seu pai. Seus passos eram vigiados, suas atividades se transformavam em relatórios analisados no Parlamento. O Marquês de Itanhaém, o tutor que sucedeu Bonifácio, preparou um regulamento para o garoto que incluía acordar diariamente às 7 da manhã. A partir daí, cada hora tinha uma atividade específica e até as conversas seguiam um tema definido. A rubrica "diversão" durava duas horas diárias. O dia acabava às 21h30 e o sono era precedido de mais leituras. O objetivo do tutor, como relata José Murilo de Carvalho, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, era criar um paladino. "Itanhaém queria formar um monarca humano, sábio, justo, honesto, constitucional, pacifista, tolerante", afirma Carvalho na biografia D. Pedro II. "Isto é, um governante perfeito, dedicado integralmente a suas obrigações, acima das paixões políticas e dos interesses privados." A vida pessoal de Pedro, como se vê, não pertencia a Pedro. Visitas de parlamentares para checar in loco a educação do príncipe eram comuns. O Parlamento recebia relatórios sobre os avanços do futuro monarca. O de 1837, por exemplo, dava conta que Pedro falava e escrevia em francês e era capaz de traduzir do inglês. Mas, como registra José Murilo de Carvalho em seu livro, o deputado Rafael de Carvalho criticava a falta de exercícios e divertimento. "Segundo os observadores, era um menino tímido, ensimesmado e, seguramente, muito carente de afeto", definiu o historiador. Imperador na puberdade, dom Pedro logo encontrou uma palavra que o acompanharia ao longo de toda a vida para descrever as cerimônias, rapapés e atividades inerentes ao mandato: "maçada". Fez uso dela ao comemorar seu primeiro aniversário na condição de imperador, quando anotou em seu diário, depois de um dia que começou às 7 da manhã e incluiu missa, te-deum, beija-mão e teatro: "Agora, façam-me o favor de me deixarem dormir. Estou muito cansado, não é pequena a maçada". Diversos diplomatas, ao longo de seu reinado, observaram o tédio que brotava do imperador brasileiro. Sobravam palavras como triste, infeliz e enfadado para descrevê-lo. Para Carvalho, porém, tratava-se de uma máscara. "O laconismo e o aparente enfado eram, sem dúvida, recursos de que o rapaz fazia uso para acobertar a enorme insegurança." Talvez o golpe mais duro na vida do jovem imperador tenha sido seu casamento - e a vida em família. Para começo de conversa, encontrar uma noiva foi tarefa complicada. O imperador governava um país distante e atrasado. Não havia no Rio de Janeiro nada que nem de perto lembrasse uma corte (diga-se, os títulos nobiliários do império brasileiro não eram herdados). A cidade era impraticável no verão - e ainda havia a fama de garanhão do pai de Pedro II. Para piorar, o imperador era um sujeito alto e de lindos olhos azuis, mas sua voz... "Bastava que abrisse a boca para que essa boa imagem inicial rapidamente se esvanecesse: a voz era aflautada, fina e aguda, como em falsete, mais própria de um adolescente em início da puberdade do que de um adulto", registra o jornalista Laurentino Gomes no recém-lançado 1889. A princesa carola O encarregado de encontrar uma princesa para dom Pedro II, Bento da Silva Lisboa, rodou a Europa por dois anos em busca de uma candidata. Acabou por negociar com o rei Fernando, das Duas Sicílias, o casamento do imperador com sua irmã mais nova, Teresa Cristina. O ramo Bourboun de Fernando era uma casa de pouco prestígio na nobreza europeia e o rei tinha fama de déspota. Ainda assim, o noivo gostou do que viu ao receber um retrato da futura imperatriz. A achou "mui bela". O casamento foi feito por procuração, e, um século antes da invenção do Photoshop, Pedro não demoraria a se arrepender do comentário. Quando Teresa Cristina chegou ao Rio, em 3 de setembro de 1843, o imperador ficou mui decepcionado. Ela era quase 4 anos mais velha, baixa, manca e feia. "Enganaram-me, Dadama", queixou-se à sua aia. Depois, chorou no ombro do mordomo imperial. Do casamento nasceu Afonso, em 1845, que morreu aos 2 anos. No ano seguinte chegou Isabel e, depois, Leopoldina. Em 1848 nasceu Pedro Afonso, que faleceu ainda bebê. O imperador ofereceu às filhas o mesmo ritmo de estudos a que foi submetido na infância. "A rotina diária de estudos prolongava-se por nove horas e meia, seis dias por semana. Incluía aulas de latim, inglês, francês e alemão, história de Portugal, da França e da Inglaterra, literatura portuguesa e francesa, geografia e geologia, astronomia, química, física, geometria e aritmética, desenho, piano e dança", escreve Laurentino Gomes. "Mais tarde, passaram a incluir também o italiano e o grego, história da filosofia e economia política. No começo, o imperador encarregava-se pessoalmente das aulas de geometria e astronomia. Chegou a escrever um tratado sobre astronomia para as princesas." Tanta cultura assim, porém, acabou fazendo mal às moças. A historiadora Mary del Priore, autora de O Castelo de Papel, sobre Isabel e seu marido, Gastão de Orléans, o Conde d'Eu, afirma que a erudição não deixou marcas na princesa Isabel. "Horas de aulas particulares massivas não significam a justa apreensão da matéria", diz Mary. "Que o diga a cartinha enviada ao pai quando chegou ao Recife: 'O que mesmo haviam feito por lá os holandeses?' Ela não se lembrava mais." A historiadora vai além: "Suas leituras eram censuradas pelo pai e pelo marido e seus melhores conhecimentos eram focados na vida doméstica". O casamento de Isabel, tal como o do pai, foi um grande arranjo. Gastão de Orléans, filho do Duque de Namours, chamava a futura esposa em correspondência com o pai de Negócio nº 1 (o Negócio nº 2, claro, era a princesa Leopoldina, que se casaria com seu primo). Tal como Pedro, Gastão não gostou da prometida. Em carta à irmã, descreveu a noiva em tom pouco lisonjeiro: "Para que não te surpreendas ao conhecer minha Isabel, aviso-te que ela nada tem de bonito; tem sobretudo uma característica que me chamou a atenção. É que lhe faltam completamente as sobrancelhas. Mas o conjunto de seu porte e de sua pessoa é gracioso". Mesmo assim, toda a correspondência e a pesquisa historiográfica posterior mostra que o casal era apaixonado e fiel. Havia apenas um problema - e gravíssimo. Isabel não engravidava. A primeira gestação da princesa ocorreu quase dez anos depois do casamento, e no lugar errado. O casal estava na Europa. O contrato pré-nupcial obrigava que o herdeiro do trono nascesse no Brasil. Atravessaram o Atlântico e no dia 25 de julho de 1874 Isabel teve as primeiras contrações. "Mãe e filho passaram 50 horas em dores e sofrimento", relata Mary del Priore. A criança, uma menina, morreu no útero. Para retirá-la - e salvar a vida da princesa - os ossos da feto, inclusive os do crânio, foram quebrados. O episódio dá início a um triste distanciamento entre Isabel e o pai, a quem ela culpou pela viagem de volta ao Brasil. Isabel e o marido mudaram-se para Petrópolis. A perda do bebê radicalizou a carolice da princesa, que se ligou cada vez mais à família e à religião. O casal teve mais três filhos. O imperador não gostava do genro, considerado liberal demais. Na Guerra do Paraguai, Gastão se ocupou de perseguir Solano Lopes depois que o futuro Duque de Caxias tomou Assunção. Uma de suas primeiras providências foi abolir a escravidão no país vizinho. A imprensa, a quem dom Pedro II permitia uma liberdade raramente vista no país, via em Gastão um estrangeiro que tinha os olhos grandes no império brasileiro e manipulava a mulher. Além disso, o culpava de ganhar dinheiro explorando pobres nos cortiços no centro do Rio de Janeiro, que alugava. Falta de apoio Nas narrativas tradicionais sobre o Segundo Reinado, cabe a Isabel papel preponderante. Ela era "A Redentora", responsável pelo grande gesto do fim do século 19, a abolição da escravidão. A Lei Áurea, aliás, é um requinte de minimalismo com seus dois artigos curtos: abole-se a escravidão e revogam-se as disposições em contrário. Na prática, não foi bem assim. Em 13 de maio de 1888, Isabel perdeu o apoio do último grupo que sustentava a monarquia, os fazendeiros, ainda que, como um canto do cisne, seu gesto tenha levado a monarquia à sua fase mais popular no Brasil. "Vossa alteza redimiu uma raça mas perdeu seu trono", anteviu o Barão de Cotegipe, um dos últimos chefes de governo do império. A propósito, é de Cotegipe uma das boas frases sobre os estertores da monarquia brasileira: "Não precisamos ir para a República; ela vem para nós". Na prática, Isabel estava isolada. Os jornais a tratavam por carola. O fato de Gastão de Orléans ser francês ajudava os propagandistas do temor de que o Brasil poderia ser governado por um estrangeiro - e a princesa submissa ao marido ajudava na avaliação. Gastão, em sua correspondência com o pai, atestava essa visão: "Ela estava habituada a nunca ter vontade", escreveu. "O campo estava livre para exercer todas as audácias de seu caráter." O próprio dom Pedro II não via na filha a melhor pessoa para assumir o papel de imperatriz. Deixava-a à margem das decisões da política. "A impressão que se tem, ao estudar a história do Segundo Reinado, é que dom Pedro nunca acreditou de fato que a filha pudesse assumir o trono", afirma Laurentino Gomes. Quando o imperador se mostrou preocupado com o futuro da monarquia brasileira e perguntou ao seu ministro José Antonio Saraiva o que seria o reino de Isabel, ouviu como resposta: "O reinado de vossa filha não é deste mundo". Uma óbvia indicação de que a carolice da sucessora não encontrava eco no Brasil do fim do século 19. De acordo com Mary del Priore, não há nada que indique que dom Pedro tenha intencionalmente alijado Isabel do poder. "Mas não há dúvidas, comprovadas pela correspondência do Conde d'Eu com a França, que ele nunca incentivou o casal a ter envolvimento político maior, quer participando das reuniões ou das entrevistas com o ministério, quer circulando pela cidade para angariar simpatias." Ao contrário, diz Mary, dom Pedro não se importou quando o casal se afastou da corte para morar em Petrópolis. "Onde cultivaram poucas amizades e contatos, que lhes faltaram no momento do golpe." Em defesa do imperador, diga-se que Isabel tinha ojeriza à política. Em carta ao pai, como regente em uma das viagens de dom Pedro ao exterior, Isabel contou como organizara a agenda: "Já marcamos as audiências para as quintas-feiras seguida de despacho; as recepções para as segundas e o corpo diplomático para as primeiras terças dos meses", registrou. "Por ora, eis meus únicos atos oficiais. Quem me dera não ter nenhum a fazer!!!" Durante suas viagens pelo país, as anotações em seu diário têm pouco espaço para discussões políticas, mas brotam comentários sobre jardins, concertos e jantares. Contra o Terceiro Reinado nas mãos de Isabel também pesava uma questão pessoal. Desde a regência que substituiu dom Pedro I, havia alternância de poder, ainda que as eleições fossem viciadas. Mas nenhuma mulher podia votar no século 19. Mesmo que Portugal, de onde o Brasil herdou o ordenamento legal da monarquia, permitisse que mulheres assumissem a coroa, uma presença feminina no trono incomodava. "No Brasil, conservador e patriarcal, dom Pedro sabia que o exercício político de Isabel era tarefa difícil", afirma Laurentino Gomes. "Uma mulher no trono seria um desafio enorme. O imperador manteve a princesa próxima do trono apenas dentro dos limites do protocolo." Dom Pedro tinha clareza de que emplacar a filha como sucessora era uma tarefa complicada. E a história mostra que ele não se empenhou muito em mudar esse destino. "Nunca pareceu interessado em preparar um terceiro reinado, para a filha ou para dom Pedro Augusto (veja quadro na página 35), o filho mais velho de Leopoldina", anota José Murilo de Carvalho na biografia do imperador. "Educou Isabel como tinha sido educado, mas não lhe entregou o governo nem mesmo quando já não tinha condições de governar." Para a historiadora Mary del Priore, o empenho de dom Pedro na sucessão simplesmente não existiu. "Sem agenda definida para o império, acho difícil imaginar que, tal como outros imperantes, dom Pedro tivesse interesse em organizar a transição. Em coroas europeias, essa era uma preocupação permanente", afirma Mary. "Mas não consegui identificar, na relação de dom Pedro com o casal D'Eu, nenhum impulso de ajuda ou incentivo nesse sentido." A jabuticaba no trono Monarca perfeito para uma democracia imperfeita, onde poucos votavam, Pedro detinha o Poder Moderador, uma jabuticaba política que permitia ao imperador derrubar gabinetes (tal como a fruta, isso só existia no Brasil). Por incrível que pareça, era a única forma de garantir a alternância de poder entre liberais e conservadores. A cada eleição, o partido vencedor trocava as peças de toda administração - e dessa forma tinha a faca e o queijo na mão para perpetuar-se no poder. Ainda assim (ou talvez por isso mesmo), o Poder Moderador e seu controlador, dom Pedro II, garantiram a estabilidade do império. Apesar de chefe do Poder Executivo, o imperador era considerado irresponsável por seus atos e não podia ser processado pelo Judiciário. A situação criava um sujeito com muito poder, mas que não devia satisfação a ninguém, nem à lei. "Durante todo o reinado discutiu-se o que significava na prática chefiar um poder que era operado por outros", afirma José Murilo de Carvalho. "O reinado terminou sem que se chegasse a um consenso sobre esse tema." "O Poder Moderador transformava dom Pedro II, mesmo à revelia de sua vontade pessoal, num soberano absoluto de fato, o que era já uma relíquia de museu no revolucionário século 19", afirma Laurentino Gomes. Para a historiadora Mary del Priore, o Poder Moderador contribuiu para que o Império fosse confundido com toda sorte de arcaísmos. "O povo e a opinião pública desejavam ardentemente a modernização do país", diz Mary. "Para eles, a coroa e seus representantes eram o que havia de mais antiquado e conservador." Imperador republicano Para complicar ainda mais a aspiração de Isabel, dom Pedro não parecia muito preocupado em perder o trono. Seus momentos de vida mais felizes ocorreram quando ele deixou o peso da farda de imperador para tornar-se apenas o cidadão Pedro de Alcântara, como gostava de ser tratado em suas viagens internacionais. Há evidentes sinais de que, para ele, a República era algo inevitável no Brasil. "Aparentemente, dom Pedro se resignou à marcha da história", afirma Laurentino Gomes. De fato, em algumas correspondências, o imperador não esconde que vestiria melhor o figurino republicano. Em seu diário, em 1862, muito antes da explosão do movimento pela República no Brasil, ele anotou: "Nasci para consagrar-me às letras e às ciências, e, a ocupar posição política, preferiria a de presidente da República ou de ministro à de imperador". Quando o golpe que levou à República eclodiu no Rio de Janeiro, dom Pedro estava em Petrópolis. Poderia ter fugido para o interior e comandado a resistência. Poderia ter parlamentado com o marechal Deodoro da Fonseca, seu amigo e, ainda que alçado a líder do movimento, sem grandes pendores republicanos. Mas ele simplesmente se acomodou e aceitou os fatos. "O imperador mantinha-se abúlico e fatalista", descreve José Murilo de Carvalho em D. Pedro II. "Quando lhe disseram que a República já podia estar proclamada, respondeu: 'Se for assim, será a minha aposentadoria. Já trabalhei muito e estou cansado. Irei então descansar'." No dia 16, a princesa Isabel, que na véspera pedira ao pai para que convocasse o Conselho de Estado, simplesmente pôs-se a chorar. Reuniu-se aos filhos e preparou-se para embarcar para o exílio. Na Europa, pai e filha dedicaram-se ao que realmente gostavam. Pedro de Alcântara aproximou-se ainda mais de cientistas e intelectuais, como Louis Pasteur (a quem, como imperador, angariou doações ao seu hoje célebre instituto). O médico que assinou seu atestado de óbito, por exemplo, era Jean-Martin Charcot, um dos pioneiros da psiquiatria. Dom Pedro morreu de complicações de uma pneumonia em 1891, mas Charcot havia chegado a outro diagnóstico ao imperador em sua última viagem à Europa como mandatário brasileiro: ele sofria de surmenage, fadiga física e mental. Curiosamente, no filme Augustine, recentemente em cartaz, o médico francês aparece em algumas cenas com um pequeno macaco de estimação, um presente de dom Pedro. Isabel dedicou-se à família. Seu marido comprou o Castelo d'Eu, na Normandia. Durante a Primeira Guerra, a princesa se ocupou de gerir cozinhas comunitárias e o marido representava a Cruz Vermelha na região. Com uma baioneta, fazia a ronda noturna no vilarejo próximo ao castelo. Isabel morreu em 14 de novembro de 1921. Tal como o pai, sem nunca ter voltado ao Brasil. O plano B da Monarquia Nos últimos anos do Segundo Reinado, apareceu um novo candidato ao trono de dom Pedro II. Seu neto Pedro Augusto, filho da princesa Leopoldina, começou uma articulação de bastidores para transformar-se em dom Pedro III. Era uma forma de evitar a posse de uma mulher carola e ainda por cima casada com um estrangeiro e de prolongar um pouco mais a monarquia. "As tensões entre Isabel e o sobrinho eram enormes", registra Mary del Priore em O Castelo de Papel. "O grupo de 'pedristas' aproveitava e cabalava. Acreditava numa passagem menos radical em direção à República." Boa parte da elite brasileira acreditava que o rapaz era o nome perfeito para suceder dom Pedro II. Seu apelido era "o Preferido". Durante as angustiantes horas do 15 de novembro, Pedro Augusto se propôs a driblar a guarda e buscar contato com os sediciosos. Queria fazer algo pela família imperial. O avô o impediu - e o acusou de conspirar com os revoltosos. No navio que levou a família imperial para o exílio, o rapaz mostrou os primeiros sintomas do que hoje se chama transtorno bipolar - tentou esganar o comandante. Preso em seu camarote, jogava garrafas com pedidos de socorro no mar. A pedido de Jean-Martin Charcot, o médico de Pedro II, o "príncipe maldito", como o chamou Mary del Priore na biografia que escreveu sobre ele, foi examinado por Sigmund Freud. Internado em um sanatório depois de tentar o suicídio em 1893, Pedro Augusto morreu em 1934, 40 anos depois. "O Brasil se livrou de ter um rei louco, como já havia acontecido com Portugal, durante o reinado de Maria I, e com a Inglaterra de George III", diz Gomes. Saiba mais LIVROS D. Pedro II, José Murilo de Carvalho, Cia das Letras, 2007 O Castelo de Papel, Mary del Priore, Rocco, 20131889, Laurentino Gomes, Globo Livros, 2013

Capítulo Inédito de 1889 O imperador cansado

Um enigma desafia até hoje historiadores e estudiosos da Proclamação da República no Brasil. Apesar das evidências de uma conspiração em andamento, o governo imperial permaneceu inerte. Nos dias anteriores ao golpe republicano, o imperador Pedro II comportou-se o tempo todo como se ameaça alguma rondasse o trono. A seu ver, estava tudo tão absolutamente calmo que julgou desnecessário reunir-se com qualquer membro do governo nos dias que antecederam a queda do Império. Nenhum de seus ministros, por sua vez, preocupou-se em alertá-lo sobre os insistentes boatos que tomavam conta da cidade e sobre o óbvio clima de agitação nos quartéis. Proclamada a República, nenhum comandante de armas ou governador de província saiu em defesa da Monarquia. As reações foram raras e isoladas, na maioria dos casos nas camadas mais humildes da população, que, obviamente, não tinham meios para contrapor-se ao fato consumado. Como explicar tamanha apatia? Max Leclerc, jornalista francês que percorria o Brasil na época, registrou: "A revolução está terminada e ninguém parece discuti-la. Mas aconteceu que os que fizeram a revolução não tinham de modo nenhum a intenção de fazê-la e há atualmente na América um presidente da República à força. Deodoro desejava apenas derrubar um ministério hostil. Era contra Ouro Preto e não contra a Monarquia. A Monarquia caíra. Colheram-na sem esforço como um fruto maduro. Ninguém levantou um dedo para defendê-la". Mais adiante, falando da verdadeira causa da queda do Império, Leclerc afirmou que a própria Monarquia, obsoleta e incapaz de se reinventar, fora decisiva para o triunfo republicano: "O edifício imperial, mal construído, edificado para outros tempos e outros destinos, já não bastava às necessidades dos novos tempos. Incapaz de resistir à pressão das ideias, das coisas e dos homens novos, já se tornara caduco e tinha seus alicerces abalados". Ninguém simbolizava mais esse quadro de letargia e torpor do que o próprio monarca. No crepúsculo do Segundo Reinado, um dom Pedro II doente, cansado e "velho antes do tempo", como definiu o sociólogo pernambucano Gilberto Freyre, nem de longe lembrava a figura poderosa e carismática que por quase meio século conduzira com firmeza, paciência e sabedoria os destinos da nação. Confrontado com o avanço da propaganda republicana e a indisciplina nos quartéis gerada pela Questão Militar, parecia incapaz de exercer a liderança que o momento exigia. "O imperador cada vez mais esquecido das coisas presentes e alheio aos assuntos políticos", anotou o visconde de Taunay em seu diário de 19 de abril de 1889. Dom Pedro II era um homem frágil, na juventude sujeito a frequentes ataques de epilepsia e, a partir da meia-idade, vítima de diabetes. Os problemas de saúde se agravaram muito nos dois anos finais do seu reinado. Em fevereiro de 1887, enquanto assistia a um concerto no Hotel Bragança de Petrópolis, foi atacado por uma dor de cabeça tão forte que se viu obrigado a se retirar do camarote em que estava. O desconforto persistiu por dois meses. Em abril, os médicos diagnosticaram um ataque de febre palustre, agravado pelo avanço do diabetes. Sua memória ficou bastante abalada. Alguns auxiliares chegaram a suspeitar que estivesse perdendo a sanidade mental. A princesa Isabel, que se encontrava na Europa, foi chamada a voltar às pressas ao Brasil. "Fiquei muito mal impressionado com o aspecto do imperador", escreveu o barão Von Seiller, representante da Áustria no Rio de Janeiro. "Envelheceu muito, está magro, o rosto abatido e não tem a mesma alegria de antes. Dá a impressão, às vezes, de que tem dificuldade em falar. Em suma, é um homem doente." O quadro pareceu tão grave que os médicos aconselharam tratamento na Europa. Embarcou no dia 30 de junho de 1887, em companhia da imperatriz e do neto Pedro Augusto, enquanto a princesa Isabel assumia a regência pela terceira vez. Na sua ausência, de um ano e dois meses, era tal a convicção de que o imperador não retornaria com vida que, em artigo no jornal O País, o jornalista republicano Quintino Bocaiúva referiu-se ao navio que o transportava como "esquife da Monarquia". Na Europa, dom Pedro II ficou aos cuidados dos professores Charles Bouchard e Jean-Martin Charcot, duas sumidades médicas. Internado durante dois meses em uma estação de águas terapêuticas na Suíça, pareceu se recuperar. Na manhã de 3 de maio, no entanto, teve uma súbita recaída em Milão. Chamado às pressas, seu médico particular, Claudio Velho da Mota Maia, registrou que o aspecto de dom Pedro era assustador. Prostrado na cama do hotel, parecia agonizar. Chegou a receber a extrema-unção de um padre convocado às pressas, enquanto os médicos lhe aplicavam injeções de cafeína, um poderoso estimulante. A situação era tão delicada que, ao receber o telegrama do Brasil com notícia da aprovação da Lei Áurea, a imperatriz Teresa Cristina inicialmente relutou em mostrá-lo ao marido. Temia que a emoção pudesse agravar-lhe o estado de saúde. Por fim, decidiu que era melhor contar logo as novidades que ele esperava havia muito tempo. Dom Pedro II abriu lentamente os olhos e mal teve forças para perguntar: - Não há mais escravos no Brasil? - Não há - respondeu a imperatriz. - A lei foi votada no dia 13; a escravidão está abolida. - Demos graças a Deus - murmurou dom Pedro. - Grande povo! Grande povo! E desatou a chorar copiosamente. Ao retornar da Europa, em agosto de 1888, tinha a aparência de inválido, sem ânimo para nada e incapaz de conduzir os destinos da nação. "Todo o sistema de governo, que durante quarenta anos dependera da orientação e da inspiração do imperador, perdeu o rumo nos meses que se seguiram ao seu retorno", observou o historiador britânico Roderick J. Barman. "Aos 62 anos", relatou Heitor Lyra, biógrafo de Pedro II, "dava a impressão de um homem velho de corpo e de espírito, com a aparência de um ancião, barba e cabelos embranquecidos, andar pesado e arrastado - o todo um ar de homem cansado." Tornou-se forte o rumor de uma abdicação em favor da princesa Isabel, o que, por sua vez, só fez aumentar a resistência a um eventual terceiro reinado, pelas suspeitas que a princesa e o marido despertavam entre boa parte da elite brasileira. Uma hipótese muito discutida foi que a própria Isabel também abdicaria em favor do sobrinho, o príncipe Pedro Augusto, filho de sua falecida irmã Leopoldina. Afastaria assim o risco de que o trono brasileiro fosse ocupado, indiretamente, por um estrangeiro, o francês conde d'Eu. As preocupações a respeito da saúde do imperador e sua capacidade de conduzir os destinos da nação eram partilhadas na família real. "Nunca, nos últimos 40 anos, a situação da Monarquia brasileira pareceu mais instável do que hoje", escreveu o conde d'Eu numa carta ao pai, o conde de Nemours, em 23 de agosto de 1888. "O declínio da Monarquia não faz senão se acentuar cada vez mais", anotou em outra carta, de novembro do mesmo ano. "O imperador, por maior que seja a sua boa vontade, já é incapaz de governar como governava antes de adoecer." Em maio de 1889, o conde d'Eu anunciou que faria uma longa viagem às províncias do Norte e do Nordeste. O objetivo era defender o Império contra os ataques cada vez mais agressivos dos republicanos. Dificilmente haveria pior garoto-propaganda para a Monarquia. O conde viajou sozinho, deixando a princesa Isabel no Rio de Janeiro. Os críticos viram nisso a prova de que, na eventualidade de um terceiro reinado, seria ele o verdadeiro imperador do Brasil. Ciente da impopularidade do adversário, o advogado Silva Jardim decidiu sair-lhe ao encalço. Aonde fosse o conde, lá estaria também o mais radical dos propagandistas republicanos. Por coincidência, embarcaram no mesmo navio. O conde foi recebido com festas em todas as cidades, mas logo se confirmou a sua falta de habilidade política. Em discurso premonitório no Recife, afirmou que, se a Monarquia fosse derrubada pela República, a família imperial teria de deixar o Brasil. A declaração causou polêmica no Rio de Janeiro. Enquanto isso, Silva Jardim enfrentava problemas com a polícia em meio a manifestações a favor e contra o Império. No dia 15 de julho, quando a família imperial saía do teatro no Rio de Janeiro, alguém gritou "Viva a República!". Em seguida, ouviu-se um tiro de revólver, que teria passado de raspão no coche de dom Pedro II. O autor do disparo, o português Adriano Augusto do Vale, preso em seguida, era um caixeiro desempregado, sem qualquer ligação com o movimento republicano. No momento da prisão, estava embriagado, na porta de um bar onde, diante dos fregueses, vangloriava-se em alta voz de haver atirado contra o imperador, prometendo voltar à carga visto ter errado o alvo. Era um caso banal, mas serviu de combustível no clima de radicalização reinante na cidade. Em resposta ao suposto atentado, o chefe da polícia do Rio de Janeiro, conselheiro José Basson de Miranda Osório, publicou um edital proibindo qualquer pessoa de dar vivas à República, medida que logo caiu em descrédito. Enquanto isso, o governo perdia apoio também no Congresso. Às vésperas da viagem do conde d'Eu, caiu o ministério de João Alfredo Correia de Oliveira, responsável pela aprovação da Lei Áurea. Em seu lugar assumiu o visconde de Ouro Preto, chefe do último gabinete do Império. Aos 52 anos, deputado por Minas Gerais desde 1864, formado pela Faculdade de Direito de São Paulo, era o candidato favorito da princesa Isabel. Todos viam sua chegada ao poder como uma preparação para o impopular terceiro reinado. Antes de Ouro Preto, dom Pedro II tentara convencer o liberal baiano José Antonio Saraiva a assumir o posto. Saraiva recusara alegando problemas de saúde, mas teve a coragem de entabular com o imperador uma conversa franca a respeito do que, na sua opinião, viria a ocorrer nos meses seguintes. Na sua opinião, a República parecia inevitável. Era preciso preparar o país para recebê-la. Preocupava-o a possibilidade de anarquia e derramamento de sangue numa eventual mudança de regime pela via revolucionária. Sugeriu que, por precaução, o governo tomasse a iniciativa de propor reformas para atender a algumas reivindicações republicanas, como a federação, de modo a tornar a transição o menos dolorosa possível. - E o reino da minha filha? - perguntou-lhe o imperador. - O reinado de vossa filha não é deste mundo - teria lhe respondido o político baiano, fazendo ver ao imperador que o "devotamento ao clericalismo" da princesa Isabel e a impopularidade do marido, conde d'Eu, tornavam a hipótese de um terceiro reinado inviável. Ao assumir o governo, Ouro Preto apresentou ao Congresso um ambicioso programa de reformas. Propôs o fim da vitaliciedade no Senado, a redução dos poderes do Conselho de Estado, que passaria a ser um órgão meramente administrativo, sem funções executivas, a eleição das autoridades municipais, a escolha dos presidentes e vice-presidentes das províncias entre os candidatos mais votados (e não mais por mera indicação do imperador), o sufrágio universal, liberdade de culto, reforma no sistema de educação a fim de estimular a iniciativa privada. "A situação do país define-se, a meu ver, por uma frase: necessidade urgente e imprescindível de reformas liberais", resumiu o novo chefe do gabinente. À primeira vista, era um programa ousado, mas na prática tratava-se da mesma proposta apresentada duas décadas antes pelo mesmo Partido Liberal agora comandado por Ouro Preto, sem nunca ter sido colocada em prática. Para os republicanos era mais uma cabal demonstração de que o Império não seria capaz de reformar-se a si mesmo, travado pelas suas próprias forças internas, uma prova de que só a mudança de regime poderia levar o país adiante. Por essa razão, ao ouvir o discurso de Ouro Preto, Pedro Luiz Soares de Sousa, deputado conservador pelo Rio de Janeiro, levantou-se e gritou: - É o começo da República! Ao que o ministro retrucou: - Não, é a inutilização da República. Ou seja, até aquele momento Ouro Preto ainda acreditava que o Império teria condições de atender às reivindicações que vinham das ruas e, dessa forma, assegurar a própria sobrevivência, pelo menos por mais algum tempo. Foi desmentido pelos acontecimentos das semanas seguintes. Irritado com a apresentação do programa de reformas dos liberais, o deputado conservador Gomes de Castro, do Maranhão, apresentou uma moção de desconfiança ao ministério, que foi aprovada por 79 votos contra 20. "O resultado da votação testemunhava a incapacidade dos grupos dominantes de aceitar a mudança e as reformas necessárias", observou a historiadora Emília Viotti da Costa. Durante os acalorados debates, dois deputados - o advogado Cesário Alvim, de Minas Gerais, e o padre João Manuel de Carvalho, do Rio Grande do Norte - subiram à tribuna para fazer profissão de fé republicana. - Não nos iludamos, a República está feita - afirmou João Manuel. - Ela existe de fato em todos os espíritos, em todos os corações brasileiros. Diante do impasse produzido pela moção de desconfiança, o imperador decidiu, pela última vez nos 67 anos da Monarquia, dissolver a Câmara e convocar novas eleições, em uma tentativa de recompor a base aliada no Parlamento. Realizado em 31 de agosto, o pleito, de fato, conferiu maioria esmagadora ao partido do governo, como tinha acontecido ao longo de todo o Segundo Reinado. Desta vez, no entanto, os novos deputados não teriam tempo de assumir seus mandatos. A República chegaria antes.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

O Manifesto do Partido Comunista.

Segundo enfoca os autores, A Liga dos Comunistas, associação operária internacional que só podia ser secreta devido às circunstâncias, no ano de 1847 do mês de novembro na cidade de Londres pôde-se realizar um programa detalhado e prático, do Partido e destinado à publicação. No capitulo I os autores explicam a questão dos Burgueses e Proletários, analisando a história de todas as sociedades que existiram tem sido a história das lutas de classes. Homem livre e escravo, patrício e plebeu, barão e servo, mestre de corporação e companheiro, ou seja, opressores e oprimidos, em constante oposição. A sociedade burguesa moderna brotou das ruínas da sociedade feudal. Não aboliu o antagonismo de classes. Apenas substituiu novas classes, novas condições de opressão, novas formas de lutas às que existiram no passado. Vemos, pois, que a própria burguesia é um produto de um longo desenvolvimento, de uma série de revoluções no modo de produção e troca. O proletário passa por diferentes fases do desenvolvimento. Logo que nasce começa a sua luta contra a burguesia. Os operários triunfam às vezes; mas é um triunfo efêmero. O verdadeiro resultado de suas lutas não é o êxito imediato, mas na união cada vez mais ampla dos trabalhadores. Pois toda luta de classe é uma luta política. No capitulo II enfocam Proletários e Comunistas mostrando que ambos não se separam, mais formam um conjunto. Os comunistas só se distinguem dos outros partidos operários em dois pontos: 1) Nas diversas lutas nacionais dos proletários, destacam e fazem prevalecer os interesses comuns do proletariado, independente da nacionalidade. 2) Nas diferentes fases por que passa a luta entre proletários e burgueses, representam, sempre, e em toda parte, os interesses em conjunto. No capitulo III analisam as literaturas Socialista e Comunista, do Socialismo Conservador ou Burguês, O Socialismo Alemão ou o “Verdadeiro” Socialismo, O Socialismo e o Comunismo Critico-utopicos, No capitulo IV explicam a Posição dos Comunistas Diante dos Diversos Partidos de Oposição. Os comunistas combatem pelo interesses; os objetivos Imediatos da classe operária, mas ao mesmo tempo, defendem e representam, no movimento atual, o futuro do movimento. Aliam-se com outros partidos contra a burguesia radical e conservadora. E concluem dizendo: PROLETÀRIOS DE TODOS OS PAÌSES, UNI-VOS!

Escola dos Annales

Jacques Le Goff em seu texto “A História Nova” aponta caminhos que a Escola do Annales percorre para se manter entre os grandes escritos históricos de sua época. Os fundadores da Escola dos Annales Lucien Febvre e Marc Bloch buscam caminhos alternativos para fazer de ciência histórica uma história como ciência, no seu bojo, uma explicação profunda, passando por várias outras ciências tais como: economia, sociologia, geografia; a idéia é fazer da história como ciência e buscando a totalidade dos fatos. “(...) a história nova não se contenta com esses avanços. Ela afirma como história global, total, e reivindica a renovação de todo o campo da história.” (LE GOFF, p.34). O desejo totalizador dessa história se encontra na antropologia histórica. A Escola dos Annales, segundo Le Goff, nasce para derrubar o conceito existente de filosofia da história, a idéia inicial de seus fundadores era de “tirar a história do marasmo da rotina” como acrescentou Lucien Febrve: ”derrubar as velhas paredes antiquadas, rotinas, erros de concepção e de compreensão”. Buscando admiração num historiador Henri Pirene que enfatiza “o método comparativo em história”, para Le Goff é mais do que natural que Pirene tem contribuído para a revista Escola dos Annales, tanto que Bloch em sua obra “Apologia da história ou o oficio do historiador” inspirado no método comparativo. O assassinato de Henrique IV por Ravaillac, um fato? Se analisarmos, se o decompusermos em seus elementos, uns materiais, outros espirituais, resultado combinado de leis gerais, de circunstâncias próprias a cada individuo, conhecidos ou ignorados, que representam um papel na tragédia, quão rápido veremos dividir-se decompor-se dissociar-se um complexo emaranhado... Algo dado? Não, algo criado pelo historiador, quantas vezes? Algo inventado e construído, com ajuda de hipóteses e conjeturas, por um trabalho delicado e apaixonante.( LE GOFF, p. 42) A história como totalidade, explicada no seu sentido e no sentido de várias outras variantes complementares. O conceito de “História Nova” está instalado e provocando críticas aos seus idealizadores. Para Le Goff, a História Nova é um instrumento de pesquisa que inclui ou perpassa por outros meios elaborados que na fusão junto a outras ciências, customizando uma nova forma de pesquisar. Tudo em nome da ciência, não é o que Le Goff diz, mas o que podemos entender de uma História Nova com perspectivas e novos conceitos. Dentre outras ciências a História Nova se apropria da economia para tentar entender a crise de 1929, ano de sua criação; na sociologia ela busca a relação entre a sociedade e o fato; na geografia seu objeto de estudo é a região e o espaço geográfico em que evidenciaram os fatos. Contudo, nem assim a História Nova parou de alfinetar os fatos e continuou na busca por outras ciências que auxiliasse em suas pesquisas. Foi na Antropologia que a História Nova conseguiu, talvez, a totalidade dos fatos, podendo analisar a cultura de cada acontecimento. Num momento em que a França perdia espaço para a Alemanha e a Itália, a Escola dos Annales tinha o propósito de promover o domínio. A sustentação de uma nova escola que abrisse caminhos para as ciências, que atribuiu à problemática histórica aos fatos. Mais do nunca, os Annales querem fazer entender. Colocar os problemas da história: “proporcionar uma História não automática, mas problemáticas”. E mais do nunca, os problemas de uma história para o tempo presente, para nos permitir viver e compreender, “ num mundo de instabilidade definitiva”. (LE GOFF, p.44-45). Para Le Goff, a Nova História aprimora os conceitos e inova na pesquisa, aproxima do passado do presente sem causar danos a nenhum deles, pelo contrário se apropria do presente para entender o passado, é apenas a ciência dos homens que pode “unir o estudo dos mortos com o dos vivos” reorganizando o tempo todo os acontecimentos sem cessar. REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA LE GOFF, Jacques. A História Nova. In. : Le Goff; Chartier; Revel. (Org.) A História Nova. 5. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2005. P. 32-80.

Até Quando?

domingo, 26 de janeiro de 2014

O QUE É BULLING

Bullying é um termo da língua inglesa (bully = “valentão”) que se refere a todas as formas de atitudes agressivas, verbais ou físicas, intencionais e repetitivas, que ocorrem sem motivação evidente e são exercidas por um ou mais indivíduos, causando dor e angústia, com o objetivo de intimidar ou agredir outra pessoa sem ter a possibilidade ou capacidade de se defender, sendo realizadas dentro de uma relação desigual de forças ou poder. O bullying se divide em duas categorias: a) bullying direto, que é a forma mais comum entre os agressores masculinos e b) bullying indireto, sendo essa a forma mais comum entre mulheres e crianças, tendo como característica o isolamento social da vítima. Em geral, a vítima teme o(a) agressor(a) em razão das ameaças ou mesmo a concretização da violência, física ou sexual, ou a perda dos meios de subsistência. O bullying é um problema mundial, podendo ocorrer em praticamente qualquer contexto no qual as pessoas interajam, tais como escola, faculdade/universidade, família, mas pode ocorrer também no local de trabalho e entre vizinhos. Há uma tendência de as escolas não admitirem a ocorrência do bullying entre seus alunos; ou desconhecem o problema ou se negam a enfrentá-lo. Esse tipo de agressão geralmente ocorre em áreas onde a presença ou supervisão de pessoas adultas é mínima ou inexistente. Estão inclusos no bullying os apelidos pejorativos criados para humilhar os colegas. As pessoas que testemunham o bullying, na grande maioria, alunos, convivem com a violência e se silenciam em razão de temerem se tornar as “próximas vítimas” do agressor. No espaço escolar, quando não ocorre uma efetiva intervenção contra o bullying, o ambiente fica contaminado e os alunos, sem exceção, são afetados negativamente, experimentando sentimentos de medo e ansiedade. As crianças ou adolescentes que sofrem bullying podem se tornar adultos com sentimentos negativos e baixa autoestima. Tendem a adquirir sérios problemas de relacionamento, podendo, inclusive, contrair comportamento agressivo. Em casos extremos, a vítima poderá tentar ou cometer suicídio. O(s) autor(es) das agressões geralmente são pessoas que têm pouca empatia, pertencentes à famílias desestruturadas, em que o relacionamento afetivo entre seus membros tende a ser escasso ou precário. Por outro lado, o alvo dos agressores geralmente são pessoas pouco sociáveis, com baixa capacidade de reação ou de fazer cessar os atos prejudiciais contra si e possuem forte sentimento de insegurança, o que os impede de solicitar ajuda. No Brasil, uma pesquisa realizada em 2010 com alunos de escolas públicas e particulares revelou que as humilhações típicas do bullying são comuns em alunos da 5ª e 6ª séries. As três cidades brasileiras com maior incidência dessa prática são: Brasília, Belo Horizonte e Curitiba. Os atos de bullying ferem princípios constitucionais – respeito à dignidade da pessoa humana – e ferem o Código Civil, que determina que todo ato ilícito que cause dano a outrem gera o dever de indenizar. O responsável pelo ato de bullying pode também ser enquadrado no Código de Defesa do Consumidor, tendo em vista que as escolas prestam serviço aos consumidores e são responsáveis por atos de bullying que ocorram dentro do estabelecimento de ensino/trabalho.

SUSTENTABILIDADE

Como muitos outros conceitos (responsabilidade social, cidadania, inclusão social etc) que transitam livre e intensamente pelas páginas e telas da mídia brasileira, o conceito de sustentabilidade anda exibindo muitas faces ou cores, comportando-se como um verdadeiro camaleão. Na verdade, ele tem sido remodelado a cada instante, refém das empresas e autoridades que o manipulam, de tal modo que fica difícil reconhecer a sua legitima acepção. A imprensa, tradicionalmente, não é muito cuidadosa com os conceitos, talvez porque, sobretudo nos últimos anos, ela tem se preocupado mais em reproduzir falas e discursos do que em entendê-los ou validá-los. Ao não adotar uma perspectiva crítica, adepta generosa que é de todos os modismos, a mídia joga o conceito de sustentabilidade para lá e para cá, como um menino sapeca que chuta sua bola preferida para todos os lados. Mas essa postura não é nada saudável. Conceitos difusos implicam, necessariamente, avaliações nada precisas, contribuem para desqualificar a cobertura, confundem a audiência e, por isso, não agregam valor a coisa alguma. Se o conceito de sustentabilidade remete (acreditamos nisso!) a valores importantes na sociedade contemporânea, então está na hora de tratá-lo com mais respeito. A imprensa não tem o direito de maquiá-lo grosseiramente, porque ele só pode ser percebido em sua plenitude quando de cara limpa. Sustentabilidade não significa crescimento permanente dos negócios, como muitos empresários, respaldados pela mídia, tentam fazer crer. Nada tem a ver com o aumento absoluto de indicadores econômicos, como PIB, com o recorde de venda de automóveis e celulares, ou com exportações expressivas de commodities (minérios ou soja). Esta leitura tosca e viciada do conceito tem estado a serviço de grandes interesses, exatamente aqueles que continuam desfrutando de privilégios enquanto a maioria dos brasileiros se esfola para manter uma vida digna. Evidentemente, a sustentabilidade está associada à problemática ambiental, mas não se reduz a ela, mesmo porque o próprio conceito de meio ambiente costuma criar algumas armadilhas para os que dele se utilizam sem maiores cuidados. A sustentabilidade não deve ser vista como algo externo à cultura, à sociedade, ao próprio homem porque tem a ver com o comportamento e a ação de cada um de nós. Ela tem a ver com a biodiversidade, mas também com a sociodiversidade. Ela não é gerada pela boa vontade e disposição de alguns poucos eleitos, mas se constrói pela mobilização da coletividade. Simplesmente porque – é importante repetir – estamos todos no mesmo barco, submetidos à mesma e inexorável condição: ou nos salvamos todos ou não se salva ninguém. Todos já percebemos (você ainda dúvida dos relatórios dramáticos sobre as mudanças climáticas?) que as tempestades andam mais intensas, o calor mais insuportável, as guerras mais frequentes e que há mais gente sem água para beber e morrendo de fome. O conceito adequado de sustentabilidade remete a uma dimensão mais ampla e que extrapola esta visão egoísta dos que faturam com a ciranda financeira, com a especulação nefasta, com a dança mesquinha das taxas de juros e do câmbio. O conceito de sustentabilidade tem a ver com compromisso, não com investimento. Sustentabilidade é algo que se implanta na alma e não apenas algo que se coloca no bolso. A sustentabilidade legítima, que a mídia insiste em não enxergar, tem a ver com a redução da pobreza, com os direitos das crianças e adolescentes, com o acesso à educação e ao trabalho, com a solidariedade, com o respeito à diversidade e à liberdade de expressão. A sustentabilidade está vinculada à valorização dos saberes e conhecimento tradicionais e inclui tanto os executivos das corporações quanto os povos da floresta. Ela decorre das políticas públicas, coordenadas pelos governantes, mas também de decisões individuais. A sustentabilidade tem uma dimensão essencialmente humana e precisa ser entendida desta forma sob pena de mascarar a realidade. Não é um conceito que pode ou deva ser apropriado por alguns ou favorecer alguns em detrimento da maioria. A imprensa precisa ter em conta de que cabe a ela um papel fundamental na sociedade e que, ao manipular os conceitos inadvertidamente, contribui para aumentar as desigualdades e para aprofundar as injustiças. A mídia não pode continuar esvaziando um conceito que nos é cada vez mais caro. Ela precisa, de uma vez por todas, comprometer-se com esta visão abrangente, com a sustentabilidade que tem a ver com o interesse público e não apenas com a permanência de seu próprio negócio. O conceito de sustentabilidade, corretamente utilizado, indica caminhos, resgata vivências e experiências e convida a todos para uma ação coletiva, solidária e corajosa. A imprensa, assim como aqueles que a pautam em seu benefício, precisam perceber que a sustentabilidade só será obtida se estivermos todos juntos. Como o conceito de ecossistema nela implícito, a sustentabilidade plena significa mais do que a soma das partes. Ela deriva de relações saudáveis, éticas, democráticas, equânimes e socialmente justas. Será que é tão difícil para a mídia compreender e divulgar esta verdade?

A PLEBE RUDE

No começo da colonização no Brail a escravidão foi o grande alicerce da colonia portuguesa, desde o inicio os portugueses utilizaram negros africanos e indios como força de trabalho , segundo Arno Wehling: “As bandeiras dado seu grande numero e a diversidade de seus objetivos e resultados, foram objetos de várias classificações. A mais funcional as organiza em ciclos da caça ao índio, do combate as tribos e quilombos e do ouro. O primeiro foi iniciado no século XVI, mas teve seu apogeu na primeira metade do século seguinte, atacando em primeiro lugar as tribos próximas ao planalto paulista, bandeirantes como Manuel e Sebastião Preto, Nicolau Barreto, André Fernandes, Antônio Rapouso Tavares e muitos outros apresaram essas populações, tomando-as como escravos, vendidos inclusive no Rio de Janeiro ”. Segundo Arno Wehling, devido ao auto custo da mão de obra negra em algumas regiões mais carentes da colônia foi comum a utilização de indios como mão de obra escrava, segundo o mesmo autor algumas cidades e vilas enviavam pedidos ao governo metropolitano pedindo autorização para prear indios . De acordo com Raymundo Campos “Ocorreram grandes conflitos entre colonos e os jesuitas em São Paulo a partir de 1680, nesse ano uma lei entregou os indios da capitania que deveriam ser cristianizados, aos cuidados dos jesuitas. A nova lei prejudicava os paulistas, que extremamente pobres não possuíam recursos para importar escravos africanos e faziam da caça e escravização dos índios uma das bases da sua economia ”. Mas nem só de luta armada foi a história dos indigenas eles reagiram de várias formas, desde o alcoolismo, homicidios e fugas, isso foi um efeito colateral contra o escravismo colonial. Tudo isso poderia comprometer a organização da economia colonial e assim comprometeria os interesses da metrópole voltada para a acumulação de capital. Quando se comprava o negro na África, isso era feito de diversas formas: troca por armas de fogo compra ou permuta , os negros eram adquiridos com uma simples promessa de proteção ou em algumas vezes eram ofertados como presentes, a maioria deles era obtida por meio de captura. Para trazer os negros era utilizado o navio negreiro: “Os navios negreiros que transportavam os africanos até o Brasil eram chamados de Tumbeiros, porque grande parte dos negros, amontoados nos porões morria durantte a viagem. O banzo (melancolia), causado pela saudade de sua terra e sua gente, era outra causa que os levava a morte, os sobreviventes eram desembarcados e vendidos nos principais portos da colônia, como Salvador, Recife e Rio de Janeiro. Os escravos africanos eram de forma geral, bastante exploados e maltratados e em média não aguentavam trabalhar mais do que dez anos. Como reação a essa situação durante todo o período colonial foram constantes os atos de resistência, desde fugas, tentativas de assassinatos do senhor e do feitor, até mesmo os suicidios ”. O drama destas travessias é do conhecimento de todos nós, mesmo com um elevado número de mortes esta atividade se mostrava altamente rentável, pois o negro quando saia da África não custava quase nada, e ao chegar aos portos brasileiros se obtinha uma boa remuneração, aqui eles eral levados aos mercados onde ficavam amontoados e eram vendidos aos seus futuros senhores. É esta a trajetória do tráfico transatlântico no Brasil desde seu surgimento até sua proibição em 1850 . Os negros eram transportados da maneira mais cruel possivel nos porões imundos, muitas vezes sem o sol e sem água doentes, mal alimentados, sujos e sem roupas, muitos morriam durante a penosa viagem. Eram desembarcados no Brasil e conduzidos aos mercados onde eram vendidos, geralmente adquiridos pelos senhores da lavoura pretavam-se a toda espécie de trabalho e moravam nas infames senzalas, alguns senhores tratavam seus escravos com brandura e humanidade, outros, porém os tratavam da maneira mais cruel possível e sem piedade alguma. No inicio os negros cativos não tinham direito social ou politico e não constituiam familia, o negro era equiparado a um animal irracional, estava submetido ao regime da mercadoria, considerado um produto comercial. Quando falamos do escravo nos vem à mente o trabalho forçado (braçal), isto historicamente comprovado, é a destinação normal que se tem dos escravos, pode parecer absurdo, mas o escravo era inimigo do trabalho, pois quando ele trabalhava era sempre de má vontade, as tarefas que lhe eram impostas eram realizadas sempre de maneiras mal feitas. O escravo só trabalhou sob o ferrão impiedoso do seu feitor. Este reflexo de não aceitar a sua condição e por isso lutar por uma condição mais digna é um ato da própria natureza humana, os castigos corporais eram comuns e eram permitidos por lei e com permissão da igreja católica, o castigo era realizado por etapas; o escravo era açoitado e o feitor lhe fazia cortes na carne com uma faca ou navalha, ele passava sal ou sumo de limão e urina e o deixava alguns dias acorrentado, a criatividade para o castigo era incrivel, eram realizados o retalhamento das nádegas, um chicote de tripas de couro, a palmatória, e o mais conhecido de todos que foi o pelourinho . A cana de açucar na colônia brasileira exigia uma mão de obra permanente, a utilização de mão de obra assalariada era impossivel, pois os portugueses vinham para o Brasil não para trabalhar, mas sim para enriquecer por aqui, de preferencia sem fazer força. O trabalho do escravo se manifestou sob o ressentimento do trabalho não retribuido, de trabalho não pago, o escravo representa a soma pela qual foi comprado ou ainda pela qual poderá ser vendido. O escravo representa um investimento de determinada soma em dinheiro, podendo ainda desempenhar a função do capital-dinheiro, podendo ser emprestado a juros, no Brasil coisa comum era o negro ser alugado e o seu senhor vivia da sua força de trabalho. No começo do século XIX havia três espécies de classificação para a população escrava mesmo não sendo leis se classificava o escravo da seguinte forma: Primeira: a de cor Segunda: a nacionalidade Terceira: a condição legal A cor era negra ou parda, quanto a nacionalidade era africano ou crioulo, se nascido no Brasil, quanto a condição legal era liberto ou ingênuo se nascido livre, havia dois caminhos para se conseguir a alforria, ela poderia ser comprada ou concedida para se entender os diferentes caminhos para se conseguir a alforria, ela poderia ser comprada ou concedida para se entender os diferentes caminhos para a alforria é preciso distinguir as diferentes subdivisões na escravidão. Existiam os negros de ganho que eram os escravos que trabalhavam fora de casa, vendendo comidas, doces, ou ttrabalhos de carpintaria, barbearia, etc., a segunda categoria foi constituida por escravos domésticos, trabalhava-se diariamente para o senhor e portanto não tinham acesso ao dinheiro, por tanto sua alforria dependia exclusivamente da sua relação de amizade com o senhor, a alforria beneficiou certas categorias de escravos, em primeiro lugar e em grandes proporções estavam as mulheres, há ai uma disparidade porque a proporção dos sexos na população escrava pendia fortemente para os homens. O escravo não participava da vida civil, pois estava privado de toda capacidade, era considerada rês, simultaneamente coisa e pessoa por isso não tinha direitos civis muito menos politicos, não podendo atuar em atos como testemunhar em juizo, testar, contrair ou exercer tutela, ele era civilmente incapaz, não constituia de direito familia mas apenas uniões de fato. Embora fossem reconhecidos os casamentos de escravos, eram minimos seus direitos civis , muitos senhores deixavam seus escravos constituirem familia, pois assim eles acreditavam que os mesmos não fugiriam, pois estavam ligados onde viviam por laços de parentescos.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Todos Contra o Racismo

A escrava que disse “não”

Às margens do Paraíba do Sul, a jovem Caetana se casou à revelia com o também escravo Custódio, em uma cerimônia simples, na capela da fazenda Rio Claro, em 1835. A mucama de 17 anos tinha “grande repugnância ao estado de matrimônio” e não lhe animava a ideia de aderir à vida conjugal com aquele que se tornaria seu esposo. Com medo de Luís Mariano de Tolosa, seu senhor, o qual ordenara que se casasse, Caetana disse sim no altar, mas entre quatro paredes não tardou em fazer valer sua vontade. Negou-se a consumar o laço sagrado por três noites seguidas, mesmo após árduas investidas do cônjuge. Humilhado, Custódio se queixou à família da moça e acabou por despertar a ira do padrinho Alexandre, dono da casa em que o casal morava. Na quarta noite em que ela se negou a aceitar o marido na cama, Alexandre ameaçou castigar Caetana por desobediência. Provida de uma coragem incomum para as mulheres da época, a escrava fugiu aos prantos, sozinha, em direção à casa-grande. Não se sabe se foi por pena, mas Luís Mariano Tolosa ouviu as queixas da mucama, que trabalhava diariamente em sua casa, e decidiu consultar um advogado para iniciar o processo de anulação do casamento. O processo de Caetana e Custódio foi o primeiro (e um dos únicos) no Brasil que teve como ponto de partida a negativa de uma escrava a consumar um casamento arranjado, como mostrou a pesquisa de Sandra Lauderdale Graham, que descobriu essa história. Uma vez iniciado, o trâmite abriu uma brecha na legislação vigente ao permitir que escravos fossem ouvidos em Corte, num julgamento que envolvia três partes: esposa, marido e Igreja. As testemunhas “puseram a mão direita sobre a Bíblia e juraram dizer somente a verdade”. Apesar de todo o empenho das partes, a anulação foi negada. Para tanto, foi fundamental o depoimento do padre que selou a união do casal, o qual chegou a afirmar em carta redigida em próprio punho que antes do casamento ouviu no confessionário da boca de Caetana que ela manifestava vontade de se casar. Durante cinco anos, a moça viveu separada de Custódio, sem consumar o casamento, até o processo passar por todas as instâncias burocráticas necessárias. Não há registros se depois da decisão judicial ela cumpriu seus deveres de esposa e voltou a morar com o marido, o qual, aliás, em juízo, afirmou não ter interesse em permanecer com ela contra sua vontade. Tampouco se conhece de onde Caetana tirou força para desafiar as estruturas de poder da sociedade de seu tempo, já que casamentos forçados, principalmente entre escravos, eram comuns. O que se sabe é que o audacioso “não” de Caetana reverberou na história como símbolo de coragem. Saiba mais GRAHAM, Sandra Lauderdale. Caetana diz não. Histórias de mulheres da sociedade escravista. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

A ORDEM DOS ASSASSINOS

ORDEM DOS ASSASSINOS Quem assistiu o filme "O Príncipe da Pérsia", deve se lembrar deles. E eles realmente existiram! A Ordem de Assassinos foi uma seita fundada no século XI por Hassan ibn Sabbah, conhecido como O Velho da Montanha. Seu fundador criou a seita com o objetivo de difundir uma nova corrente do ismaelismo, que ele mesmo havia criado. Sua sede era uma fortaleza situada na região de Alamut, no Irão. A fama do grupo se alastrou até o mundo cristão, que ficou surpreso com a fidelidade de seus membros, mais até que com sua ferocidade. Seu líder possuía cerca de 60 mil seguidores, segundo alguns relatos da época especulavam. Para Bernard Lewis, autor de Os Assassinos, haveria um evidente paralelo entre essa seita e o comportamento extremista islâmico, assim como o ataque suicida como demonstração de fé. O ismaelismo é uma das correntes do esoterismo islâmico, que se enquadra no Islão Xiita. O termo viria de "Assass" – ou seja, "os fundamentos" da fé islâmica. Mas muitas são as versões sobre essa nomenclatura, como nome da seita teria dado origem às palavras "assassino" e outras semelhantes em várias línguas europeias. Desde Marco Polo que se acredita que o termo provém de "haxixe" ou que o nome da erva haxixe tem origem no ato de "haschichiyun", que significa "fumador de haxixe". Algumas fontes cristãs medievais relatam que os Assassinos teriam por hábito consumir esta substância antes de perpetrarem os seus ataques, induzindo-lhes a visão do Paraíso. Contudo, as fontes ismaelitas não fazem referência a qualquer prática deste tipo, sendo esta lenda resultado de relatos de Marco Polo e de outros viajantes europeus no Médio Oriente. No entanto, Amin Malouf afirma que "A verdade é diferente. De acordo com textos que chegaram até nós a partir de Alamut , Hassan-i Sabbah gostava de chamar seus discipulos de Asasiyun, ou seja, pessoas que são fiéis à Asas, que significa "fundação" da fé. Esta é a palavra, mal compreendida pelos viajantes estrangeiros, que parecia semelhante ao 'haxixe' ". Apesar de andarem uniformizados na fortaleza de Alamut com trajes brancos e um cordão vermelho em volta da cintura, quando recebiam uma missão, camuflavam-se. Preferiam se misturar aos mendigos das cidades da Síria, da Mesopotâmia, do Egito e da Palestina para não despertarem a atenção. No meio da multidão urbana, eles levavam uma vida comum para não atrair suspeitas, até que um emissário lhes trazia a ordem para atacar. Geralmente, eles aproximavam-se da sua vítima em número de três. Se por acaso dois punhais ou lâminas ocultas nas mangas fracassassem, haveria ainda um terceiro a completar o serviço. Atuavam em qualquer lugar - nos mercados, nas ruas estreitas, dentro dos palácios e até mesmo no silêncio das mesquitas, lugar por eles escolhido em razão das vítimas estarem ali entregues à oração e com a guarda relaxada. Até o grande sultão Saladino, seu inimigo de morte, eles chegaram a assustar, deixando um punhal com um bilhete ameaçador em cima da sua alcova. Após a destruição da base de Alamut em 1256 os Hassins sobreviventes se refugiaram na Europa e, mantendo-se ocultos, puderam manter viva a ordem. Há vestígios de que os Hassins tenham atuado em várias guerras, sendo peça chave em grandes vitórias, como na conquista de Constantinopla em 1453. O sultão Maomé II teria contratado assassinos para se infiltrarem e se misturarem com o povo em Constantinopla colhendo informações, Espalhando boatos falsos e assassinando os principais comandantes . Há indícios de que eram apenas cinco homens e uma mulher liderados por Hassan Abn Sur. Um ismaelita por influencia de seu pai, mas que também tinha em suas veias o sangue latino de sua mãe, e ainda era noivo de uma européia (Sophie Chermont) sendo muita vezes questionado por seus seguidores: de que lado ele estará no momento certo?

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Na base do racismo, temor à semelhança?

Páginas de jornais e revistas andam repletas de notícias, interpretações e opiniões a respeito da legislação que reserva cotas em universidades e institutos técnicos de nível médio federais para candidatos que se declararem pretos, pardos ou indígenas, assim como a alunos que tenham feito integralmente o ensino médio em escolas públicas e a candidatos oriundos de famílias com renda familiar mensal per capita de até um salário mínimo e meio. Não faltam controvérsias. Mas não é só por aí que vai a discussão. Ela inclui, também, a discriminação contra a mulher no mercado de trabalho e na renda. Segundo informações deste jornal (28/10), o primeiro Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) pós-lei de cotas mostrou que 54% dos inscritos eram negros ou indígenas, enquanto a participação dessas etnias na população nacional é de 51%. E, dos 5,7 milhões de estudantes que se inscreveram para vestibulares, 1,5 milhão havia terminado em 2012 o ensino médio, 80% dos quais (1,2 milhão) em escolas públicas. Mesmo sem a legislação nova, o número de pretos e pardos na universidade multiplicou-se por quatro entre 1997 e 2011, segundo o Censo da Educação Superior, enquanto o de brancos pouco mais que duplicou (Estado, 17/10). E a porcentagem de pretos, pardos e indígenas na população total do Estado de São Paulo é de 34,73%. Adversários das cotas na educação também têm seus argumentos, entre eles o de que a nova legislação não promove a inclusão educacional e social dos favorecidos, apenas oculta a falta de qualidade da educação no País. E que entrar pelo caminho das cotas seria arriscado, introduziria por lei uma divisão perigosa na sociedade. Também aí não faltam números para corroborar posições. Por exemplo: segundo o Sistema de Avaliação da Educação Básica, só 12% dos alunos do 9.º período de ensino têm aprendizado adequado em Matemática; 88% não entendem frações, não sabem operar com porcentagens nem fazer cálculos com dinheiro; e só 22% têm um bom aprendizado da língua portuguesa. Não é só: ainda temos 10,9 milhões de analfabetos, 77 milhões de pessoas não têm o hábito de ler e o piso salarial médio dos professores com 40 horas semanais de trabalho é de apenas R$ 1.451,00. Há estatísticas em profusão. O número de assassinatos de negros no País foi 132% maior que o de brancos, entre 2002 e 2010, enquanto caiu o número de mortes violentas de brancos (Estado, 30/11). Mas a renda da população negra cresceu em ritmo cinco vezes maior que a não negra em dez anos. Oito em dez pessoas que chegam à classe média são negras (FP, 18/11). A participação das mulheres na força de trabalho aumentou de 40% para 44,5%, entre 1992 e 2009, segundo o IBGE. Mas elas trabalham mais que os homens, porque adicionam 22 horas semanais de trabalho doméstico às 36 horas fora de casa, enquanto os homens somam apenas 9,5 horas a suas 43 horas semanais fora de casa. Só que a remuneração média das mulheres é cerca de 1/3 menor que a dos homens: R$ 1.020,31, ante R$ 1.505,08. Tudo isso num quadro em que o Brasil é um dos países de maior desigualdade no mundo (Estado, 29/11), com 20% da população de maior renda detendo 57% da riqueza total do País (eram 63,7% em 2001), enquanto os 40% mais pobres ficam com 11% do total. Todas essas coisas trazem de volta à memória do autor destas linhas uma discussão de que participou há 20 anos, em Salvador, na Sociedade de Cultura Negra no Brasil, promovida pela cientista social Juana Elbein dos Santos. Ali, o historiador Joel Rufino dos Santos começou por perguntar: Os direitos humanos são um valor universal? Todos os povos os percebem, compartilham e aceitam da mesma forma? Ou tudo depende da cultura, da geografia, do segmento social do observador? Mesmo entre nós não é assim? "Grande parte do povão" - afirmou ele - não admite que se invoquem esses direitos para proteger supostos ou reais infratores, principalmente assaltantes, sequestradores, etc. Parece favorável até a que se torturem esses acusados, mesmo antes de qualquer definição judicial nos casos em que estejam expostos. "Para a parcela mais pobre da população" - disse ele -, "os únicos laços com o Estado estão no cobrador de impostos e na polícia" (revista Visão, 8/4/1992). Opinião semelhante à do escritor Márcio de Souza, que mais de uma década depois, em outra discussão, em Manaus, disse que "cultura popular só entra no noticiário quando chega a polícia". Quem pesquisar mais verá que o quadro também é dramático quando se trata de etnias indígenas. Só em 1988, depois de séculos de violências, aconteceu a primeira condenação judicial no Brasil de um branco por assassinato de um índio. E, como sempre, disputando as terras do outro. Nada novo, se se lembrarem os assassinatos e suicídios de mais de 500 índios guarani kaiowá nos últimos tempos, como tem sido relatado pela comunicação. Vale a pena, por tudo isso, retornar ao debate de Salvador, para destacar o pensamento exposto na ocasião pelo professor Kabengele Mutanga, professor da Universidade de São Paulo (USP) mas natural do Zaire (hoje República do Congo, país-sede de uma guerra civil em que já morreram milhões de pessoas, de etnias que disputam entre elas suas terras tradicionais, de onde foram expulsas por empresas colonizadoras). Exilado em São Paulo, o professor Kabengele Mutanga foi contundente: "Temos de parar de falar só nos direitos dos negros, dos índios e outras minorias à base de diferenças, apenas. A base do racismo não está exatamente na negação da diferença. Está no temor da semelhança. É pelo fato de saber que eu posso fazer as mesmas coisas que ele, posso ocupar o lugar dele, que o branco racista me discrimina, persegue e mata". As divergências são respeitáveis. Mas quem olha o panorama brasileiro, com as diferenças econômicas, a situação do mercado de trabalho e a possibilidade de acesso a oportunidades educacionais, certamente presta atenção às palavras do professor Mutanga. * Jornalista, e-mail: wlrnovaes@uol.com.br

A Finalidade da História

Estamos condenados a cometer os mesmos erros do passado, pois a maioria acha que estudar história é uma coia desnecessária pois só trata do passado e de pessoas que já morreram. Mas se esquecem que foi no passado que foi construído o caminho para se chegar até aqui.