domingo, 26 de janeiro de 2014

O QUE É BULLING

Bullying é um termo da língua inglesa (bully = “valentão”) que se refere a todas as formas de atitudes agressivas, verbais ou físicas, intencionais e repetitivas, que ocorrem sem motivação evidente e são exercidas por um ou mais indivíduos, causando dor e angústia, com o objetivo de intimidar ou agredir outra pessoa sem ter a possibilidade ou capacidade de se defender, sendo realizadas dentro de uma relação desigual de forças ou poder. O bullying se divide em duas categorias: a) bullying direto, que é a forma mais comum entre os agressores masculinos e b) bullying indireto, sendo essa a forma mais comum entre mulheres e crianças, tendo como característica o isolamento social da vítima. Em geral, a vítima teme o(a) agressor(a) em razão das ameaças ou mesmo a concretização da violência, física ou sexual, ou a perda dos meios de subsistência. O bullying é um problema mundial, podendo ocorrer em praticamente qualquer contexto no qual as pessoas interajam, tais como escola, faculdade/universidade, família, mas pode ocorrer também no local de trabalho e entre vizinhos. Há uma tendência de as escolas não admitirem a ocorrência do bullying entre seus alunos; ou desconhecem o problema ou se negam a enfrentá-lo. Esse tipo de agressão geralmente ocorre em áreas onde a presença ou supervisão de pessoas adultas é mínima ou inexistente. Estão inclusos no bullying os apelidos pejorativos criados para humilhar os colegas. As pessoas que testemunham o bullying, na grande maioria, alunos, convivem com a violência e se silenciam em razão de temerem se tornar as “próximas vítimas” do agressor. No espaço escolar, quando não ocorre uma efetiva intervenção contra o bullying, o ambiente fica contaminado e os alunos, sem exceção, são afetados negativamente, experimentando sentimentos de medo e ansiedade. As crianças ou adolescentes que sofrem bullying podem se tornar adultos com sentimentos negativos e baixa autoestima. Tendem a adquirir sérios problemas de relacionamento, podendo, inclusive, contrair comportamento agressivo. Em casos extremos, a vítima poderá tentar ou cometer suicídio. O(s) autor(es) das agressões geralmente são pessoas que têm pouca empatia, pertencentes à famílias desestruturadas, em que o relacionamento afetivo entre seus membros tende a ser escasso ou precário. Por outro lado, o alvo dos agressores geralmente são pessoas pouco sociáveis, com baixa capacidade de reação ou de fazer cessar os atos prejudiciais contra si e possuem forte sentimento de insegurança, o que os impede de solicitar ajuda. No Brasil, uma pesquisa realizada em 2010 com alunos de escolas públicas e particulares revelou que as humilhações típicas do bullying são comuns em alunos da 5ª e 6ª séries. As três cidades brasileiras com maior incidência dessa prática são: Brasília, Belo Horizonte e Curitiba. Os atos de bullying ferem princípios constitucionais – respeito à dignidade da pessoa humana – e ferem o Código Civil, que determina que todo ato ilícito que cause dano a outrem gera o dever de indenizar. O responsável pelo ato de bullying pode também ser enquadrado no Código de Defesa do Consumidor, tendo em vista que as escolas prestam serviço aos consumidores e são responsáveis por atos de bullying que ocorram dentro do estabelecimento de ensino/trabalho.

SUSTENTABILIDADE

Como muitos outros conceitos (responsabilidade social, cidadania, inclusão social etc) que transitam livre e intensamente pelas páginas e telas da mídia brasileira, o conceito de sustentabilidade anda exibindo muitas faces ou cores, comportando-se como um verdadeiro camaleão. Na verdade, ele tem sido remodelado a cada instante, refém das empresas e autoridades que o manipulam, de tal modo que fica difícil reconhecer a sua legitima acepção. A imprensa, tradicionalmente, não é muito cuidadosa com os conceitos, talvez porque, sobretudo nos últimos anos, ela tem se preocupado mais em reproduzir falas e discursos do que em entendê-los ou validá-los. Ao não adotar uma perspectiva crítica, adepta generosa que é de todos os modismos, a mídia joga o conceito de sustentabilidade para lá e para cá, como um menino sapeca que chuta sua bola preferida para todos os lados. Mas essa postura não é nada saudável. Conceitos difusos implicam, necessariamente, avaliações nada precisas, contribuem para desqualificar a cobertura, confundem a audiência e, por isso, não agregam valor a coisa alguma. Se o conceito de sustentabilidade remete (acreditamos nisso!) a valores importantes na sociedade contemporânea, então está na hora de tratá-lo com mais respeito. A imprensa não tem o direito de maquiá-lo grosseiramente, porque ele só pode ser percebido em sua plenitude quando de cara limpa. Sustentabilidade não significa crescimento permanente dos negócios, como muitos empresários, respaldados pela mídia, tentam fazer crer. Nada tem a ver com o aumento absoluto de indicadores econômicos, como PIB, com o recorde de venda de automóveis e celulares, ou com exportações expressivas de commodities (minérios ou soja). Esta leitura tosca e viciada do conceito tem estado a serviço de grandes interesses, exatamente aqueles que continuam desfrutando de privilégios enquanto a maioria dos brasileiros se esfola para manter uma vida digna. Evidentemente, a sustentabilidade está associada à problemática ambiental, mas não se reduz a ela, mesmo porque o próprio conceito de meio ambiente costuma criar algumas armadilhas para os que dele se utilizam sem maiores cuidados. A sustentabilidade não deve ser vista como algo externo à cultura, à sociedade, ao próprio homem porque tem a ver com o comportamento e a ação de cada um de nós. Ela tem a ver com a biodiversidade, mas também com a sociodiversidade. Ela não é gerada pela boa vontade e disposição de alguns poucos eleitos, mas se constrói pela mobilização da coletividade. Simplesmente porque – é importante repetir – estamos todos no mesmo barco, submetidos à mesma e inexorável condição: ou nos salvamos todos ou não se salva ninguém. Todos já percebemos (você ainda dúvida dos relatórios dramáticos sobre as mudanças climáticas?) que as tempestades andam mais intensas, o calor mais insuportável, as guerras mais frequentes e que há mais gente sem água para beber e morrendo de fome. O conceito adequado de sustentabilidade remete a uma dimensão mais ampla e que extrapola esta visão egoísta dos que faturam com a ciranda financeira, com a especulação nefasta, com a dança mesquinha das taxas de juros e do câmbio. O conceito de sustentabilidade tem a ver com compromisso, não com investimento. Sustentabilidade é algo que se implanta na alma e não apenas algo que se coloca no bolso. A sustentabilidade legítima, que a mídia insiste em não enxergar, tem a ver com a redução da pobreza, com os direitos das crianças e adolescentes, com o acesso à educação e ao trabalho, com a solidariedade, com o respeito à diversidade e à liberdade de expressão. A sustentabilidade está vinculada à valorização dos saberes e conhecimento tradicionais e inclui tanto os executivos das corporações quanto os povos da floresta. Ela decorre das políticas públicas, coordenadas pelos governantes, mas também de decisões individuais. A sustentabilidade tem uma dimensão essencialmente humana e precisa ser entendida desta forma sob pena de mascarar a realidade. Não é um conceito que pode ou deva ser apropriado por alguns ou favorecer alguns em detrimento da maioria. A imprensa precisa ter em conta de que cabe a ela um papel fundamental na sociedade e que, ao manipular os conceitos inadvertidamente, contribui para aumentar as desigualdades e para aprofundar as injustiças. A mídia não pode continuar esvaziando um conceito que nos é cada vez mais caro. Ela precisa, de uma vez por todas, comprometer-se com esta visão abrangente, com a sustentabilidade que tem a ver com o interesse público e não apenas com a permanência de seu próprio negócio. O conceito de sustentabilidade, corretamente utilizado, indica caminhos, resgata vivências e experiências e convida a todos para uma ação coletiva, solidária e corajosa. A imprensa, assim como aqueles que a pautam em seu benefício, precisam perceber que a sustentabilidade só será obtida se estivermos todos juntos. Como o conceito de ecossistema nela implícito, a sustentabilidade plena significa mais do que a soma das partes. Ela deriva de relações saudáveis, éticas, democráticas, equânimes e socialmente justas. Será que é tão difícil para a mídia compreender e divulgar esta verdade?

A PLEBE RUDE

No começo da colonização no Brail a escravidão foi o grande alicerce da colonia portuguesa, desde o inicio os portugueses utilizaram negros africanos e indios como força de trabalho , segundo Arno Wehling: “As bandeiras dado seu grande numero e a diversidade de seus objetivos e resultados, foram objetos de várias classificações. A mais funcional as organiza em ciclos da caça ao índio, do combate as tribos e quilombos e do ouro. O primeiro foi iniciado no século XVI, mas teve seu apogeu na primeira metade do século seguinte, atacando em primeiro lugar as tribos próximas ao planalto paulista, bandeirantes como Manuel e Sebastião Preto, Nicolau Barreto, André Fernandes, Antônio Rapouso Tavares e muitos outros apresaram essas populações, tomando-as como escravos, vendidos inclusive no Rio de Janeiro ”. Segundo Arno Wehling, devido ao auto custo da mão de obra negra em algumas regiões mais carentes da colônia foi comum a utilização de indios como mão de obra escrava, segundo o mesmo autor algumas cidades e vilas enviavam pedidos ao governo metropolitano pedindo autorização para prear indios . De acordo com Raymundo Campos “Ocorreram grandes conflitos entre colonos e os jesuitas em São Paulo a partir de 1680, nesse ano uma lei entregou os indios da capitania que deveriam ser cristianizados, aos cuidados dos jesuitas. A nova lei prejudicava os paulistas, que extremamente pobres não possuíam recursos para importar escravos africanos e faziam da caça e escravização dos índios uma das bases da sua economia ”. Mas nem só de luta armada foi a história dos indigenas eles reagiram de várias formas, desde o alcoolismo, homicidios e fugas, isso foi um efeito colateral contra o escravismo colonial. Tudo isso poderia comprometer a organização da economia colonial e assim comprometeria os interesses da metrópole voltada para a acumulação de capital. Quando se comprava o negro na África, isso era feito de diversas formas: troca por armas de fogo compra ou permuta , os negros eram adquiridos com uma simples promessa de proteção ou em algumas vezes eram ofertados como presentes, a maioria deles era obtida por meio de captura. Para trazer os negros era utilizado o navio negreiro: “Os navios negreiros que transportavam os africanos até o Brasil eram chamados de Tumbeiros, porque grande parte dos negros, amontoados nos porões morria durantte a viagem. O banzo (melancolia), causado pela saudade de sua terra e sua gente, era outra causa que os levava a morte, os sobreviventes eram desembarcados e vendidos nos principais portos da colônia, como Salvador, Recife e Rio de Janeiro. Os escravos africanos eram de forma geral, bastante exploados e maltratados e em média não aguentavam trabalhar mais do que dez anos. Como reação a essa situação durante todo o período colonial foram constantes os atos de resistência, desde fugas, tentativas de assassinatos do senhor e do feitor, até mesmo os suicidios ”. O drama destas travessias é do conhecimento de todos nós, mesmo com um elevado número de mortes esta atividade se mostrava altamente rentável, pois o negro quando saia da África não custava quase nada, e ao chegar aos portos brasileiros se obtinha uma boa remuneração, aqui eles eral levados aos mercados onde ficavam amontoados e eram vendidos aos seus futuros senhores. É esta a trajetória do tráfico transatlântico no Brasil desde seu surgimento até sua proibição em 1850 . Os negros eram transportados da maneira mais cruel possivel nos porões imundos, muitas vezes sem o sol e sem água doentes, mal alimentados, sujos e sem roupas, muitos morriam durante a penosa viagem. Eram desembarcados no Brasil e conduzidos aos mercados onde eram vendidos, geralmente adquiridos pelos senhores da lavoura pretavam-se a toda espécie de trabalho e moravam nas infames senzalas, alguns senhores tratavam seus escravos com brandura e humanidade, outros, porém os tratavam da maneira mais cruel possível e sem piedade alguma. No inicio os negros cativos não tinham direito social ou politico e não constituiam familia, o negro era equiparado a um animal irracional, estava submetido ao regime da mercadoria, considerado um produto comercial. Quando falamos do escravo nos vem à mente o trabalho forçado (braçal), isto historicamente comprovado, é a destinação normal que se tem dos escravos, pode parecer absurdo, mas o escravo era inimigo do trabalho, pois quando ele trabalhava era sempre de má vontade, as tarefas que lhe eram impostas eram realizadas sempre de maneiras mal feitas. O escravo só trabalhou sob o ferrão impiedoso do seu feitor. Este reflexo de não aceitar a sua condição e por isso lutar por uma condição mais digna é um ato da própria natureza humana, os castigos corporais eram comuns e eram permitidos por lei e com permissão da igreja católica, o castigo era realizado por etapas; o escravo era açoitado e o feitor lhe fazia cortes na carne com uma faca ou navalha, ele passava sal ou sumo de limão e urina e o deixava alguns dias acorrentado, a criatividade para o castigo era incrivel, eram realizados o retalhamento das nádegas, um chicote de tripas de couro, a palmatória, e o mais conhecido de todos que foi o pelourinho . A cana de açucar na colônia brasileira exigia uma mão de obra permanente, a utilização de mão de obra assalariada era impossivel, pois os portugueses vinham para o Brasil não para trabalhar, mas sim para enriquecer por aqui, de preferencia sem fazer força. O trabalho do escravo se manifestou sob o ressentimento do trabalho não retribuido, de trabalho não pago, o escravo representa a soma pela qual foi comprado ou ainda pela qual poderá ser vendido. O escravo representa um investimento de determinada soma em dinheiro, podendo ainda desempenhar a função do capital-dinheiro, podendo ser emprestado a juros, no Brasil coisa comum era o negro ser alugado e o seu senhor vivia da sua força de trabalho. No começo do século XIX havia três espécies de classificação para a população escrava mesmo não sendo leis se classificava o escravo da seguinte forma: Primeira: a de cor Segunda: a nacionalidade Terceira: a condição legal A cor era negra ou parda, quanto a nacionalidade era africano ou crioulo, se nascido no Brasil, quanto a condição legal era liberto ou ingênuo se nascido livre, havia dois caminhos para se conseguir a alforria, ela poderia ser comprada ou concedida para se entender os diferentes caminhos para se conseguir a alforria, ela poderia ser comprada ou concedida para se entender os diferentes caminhos para a alforria é preciso distinguir as diferentes subdivisões na escravidão. Existiam os negros de ganho que eram os escravos que trabalhavam fora de casa, vendendo comidas, doces, ou ttrabalhos de carpintaria, barbearia, etc., a segunda categoria foi constituida por escravos domésticos, trabalhava-se diariamente para o senhor e portanto não tinham acesso ao dinheiro, por tanto sua alforria dependia exclusivamente da sua relação de amizade com o senhor, a alforria beneficiou certas categorias de escravos, em primeiro lugar e em grandes proporções estavam as mulheres, há ai uma disparidade porque a proporção dos sexos na população escrava pendia fortemente para os homens. O escravo não participava da vida civil, pois estava privado de toda capacidade, era considerada rês, simultaneamente coisa e pessoa por isso não tinha direitos civis muito menos politicos, não podendo atuar em atos como testemunhar em juizo, testar, contrair ou exercer tutela, ele era civilmente incapaz, não constituia de direito familia mas apenas uniões de fato. Embora fossem reconhecidos os casamentos de escravos, eram minimos seus direitos civis , muitos senhores deixavam seus escravos constituirem familia, pois assim eles acreditavam que os mesmos não fugiriam, pois estavam ligados onde viviam por laços de parentescos.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Todos Contra o Racismo

A escrava que disse “não”

Às margens do Paraíba do Sul, a jovem Caetana se casou à revelia com o também escravo Custódio, em uma cerimônia simples, na capela da fazenda Rio Claro, em 1835. A mucama de 17 anos tinha “grande repugnância ao estado de matrimônio” e não lhe animava a ideia de aderir à vida conjugal com aquele que se tornaria seu esposo. Com medo de Luís Mariano de Tolosa, seu senhor, o qual ordenara que se casasse, Caetana disse sim no altar, mas entre quatro paredes não tardou em fazer valer sua vontade. Negou-se a consumar o laço sagrado por três noites seguidas, mesmo após árduas investidas do cônjuge. Humilhado, Custódio se queixou à família da moça e acabou por despertar a ira do padrinho Alexandre, dono da casa em que o casal morava. Na quarta noite em que ela se negou a aceitar o marido na cama, Alexandre ameaçou castigar Caetana por desobediência. Provida de uma coragem incomum para as mulheres da época, a escrava fugiu aos prantos, sozinha, em direção à casa-grande. Não se sabe se foi por pena, mas Luís Mariano Tolosa ouviu as queixas da mucama, que trabalhava diariamente em sua casa, e decidiu consultar um advogado para iniciar o processo de anulação do casamento. O processo de Caetana e Custódio foi o primeiro (e um dos únicos) no Brasil que teve como ponto de partida a negativa de uma escrava a consumar um casamento arranjado, como mostrou a pesquisa de Sandra Lauderdale Graham, que descobriu essa história. Uma vez iniciado, o trâmite abriu uma brecha na legislação vigente ao permitir que escravos fossem ouvidos em Corte, num julgamento que envolvia três partes: esposa, marido e Igreja. As testemunhas “puseram a mão direita sobre a Bíblia e juraram dizer somente a verdade”. Apesar de todo o empenho das partes, a anulação foi negada. Para tanto, foi fundamental o depoimento do padre que selou a união do casal, o qual chegou a afirmar em carta redigida em próprio punho que antes do casamento ouviu no confessionário da boca de Caetana que ela manifestava vontade de se casar. Durante cinco anos, a moça viveu separada de Custódio, sem consumar o casamento, até o processo passar por todas as instâncias burocráticas necessárias. Não há registros se depois da decisão judicial ela cumpriu seus deveres de esposa e voltou a morar com o marido, o qual, aliás, em juízo, afirmou não ter interesse em permanecer com ela contra sua vontade. Tampouco se conhece de onde Caetana tirou força para desafiar as estruturas de poder da sociedade de seu tempo, já que casamentos forçados, principalmente entre escravos, eram comuns. O que se sabe é que o audacioso “não” de Caetana reverberou na história como símbolo de coragem. Saiba mais GRAHAM, Sandra Lauderdale. Caetana diz não. Histórias de mulheres da sociedade escravista. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.